Maternidade e internet: criando filhos em tempos de redes sociais

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Cada família tem um modo de criar os filhos, e a relação destes com suas mães também é muito particular. Neste Dia das Mães, a Secom fez uma pergunta para quatro mães servidoras: em uma época onde as crianças e adolescentes nasceram imersos no ambiente digital, como você faz para supervisionar, aconselhar e acompanhar a rotina do seu filho na internet?

Para a jornalista Alexandra Cavalcanti, 42, mãe de Olivia, 16, Othon Jr., 9 e Helena, 5, essa não é uma tarefa fácil. Ela argumenta que não há uma receita pronta. É preciso paciência e persistência para encontrar um caminho. “Optei pela conversa franca e aberta com a Olivia, que já tem amplo acesso à internet. Já com relação aos dois menores, aposto na restrição, orientação e vigilância constantes.”

A administradora Cida Sampaio confessa ter um pouco de medo dessa nova era. “Minha filha Alice está com 11 anos e percebo que ela já se deixa envolver bastante com o ambiente virtual, adora fazer vídeos para o musical.ly, uma rede social de vídeos que a molecada dessa idade ama.

Como é quase impossível se desconectar dessa realidade, procuro supervisionar e mostrar os perigos que o mundo virtual pode trazer. Sou muito direta com ela, não escondo nada. Temos uma relação de confiança uma com a outra, mas sempre deixo bem claro que antes de tudo sou a mãe e também estou ali para repreender, se for necessário. Também estipulei horários para usar o celular, o que deu muito certo, pois consegui dosar mais o vício dela pela internet, e como castigo por conta de algumas notas vermelhas que nunca tinham aparecido até então, proibi algumas redes sociais, às quais ela só volta a ter acesso após a 2° avaliação”, comenta.

 

A administradora Rosângela Andrade, 37 anos, mãe de Jamilly, 22, e Jâmys, 19, diz que educar em tempos de redes sociais requer muito diálogo, pra saber como eles estão se sentindo, o que está acontecendo na faculdade ou no trabalho, se está tudo bem com o namorado e com os amigos… “Sempre me coloco como uma pessoa em que eles podem realmente confiar, o que não é fácil diante de tantos ‘amigos virtuais’ e de tantas influências externas que recebem. Entretanto, precisamos entender que não temos controle, precisamos sim, conquistar a atenção deles, com muito amor, e saber dizer não em alguns momentos.”

 

A jornalista Danielle Franco adota um modelo mais particular no que diz respeito à relação da filha, Clarisse, com as redes sociais. “Minha filha tem nove anos e não tem celular. Demorei um bom tempo pra aceitar que ela tivesse um tablet, mesmo só com joguinhos, e ela também não entra na internet sem minha autorização e supervisão. Muita gente me acha careta por isso, dizendo que eu exagero com ela e que faz parte dessa geração o acesso livre à internet. Eu discordo. Minha maternagem sempre foi cercada de informação, mas, ao mesmo tempo, é muito intuitiva, e sinto que, por combinar esses dois pontos, meu olhar para a relação de crianças com a tecnologia tem um pouco da tarja da desconfiança.”

E argumenta: “Há muita insegurança nas redes, como também fora dela, claro; mas, além disso, há uma infinidade de bobagens que só contribuem para o reforço de estereótipos, de hábitos consumistas e de emburrecimento de nossos filhos; um papel que já foi exclusivo da televisão e que hoje divide a paternidade com a internet, disso eu não tenho dúvida. Nesse meu aprendizado como mãe, venho percebendo também que não adianta simplesmente dizer que “não pode”, a gente precisa estar realmente do lado pra mostrar que determinados conteúdos e posturas são desnecessários pra vida deles, e ainda assim correndo o risco de ser vencida nos argumentos. É muito delicado, pois, ao mesmo tempo em que não dá pra liberar, também não dá pra proibir. Acho que o caminho é mesmo o diálogo, a confiança e a parceria.”

Conlvidamos a psicóloga clínica, especialista em terapia familiar Mariana Pereira para falar mais sobre o assunto:

A geração Z nasceu conectada com o mundo virtual. Essa garotada viaja o mundo em segundos e, cada vez mais rápido, estabelece relações. Nesse ponto, devemos parar e nos perguntar: que relações são essas? Com a desculpa perfeita de aproximar pessoas, a internet afasta quem está por perto. Os desejos de bom dia são gritados – ou melhor, digitados – aos quatro ventos, mas, muitas vezes, não são dados durante o café da manhã, quando todos da casa estão fisicamente reunidos, embora virtualmente separados, cada um no seu celular, tablet, notebook… Cada um está conectado com o mundo, o seu mundo.

Em momento algum responsabilizo a internet por isso. Ela é incrível! No entanto, puxo a responsabilidade para nós, que a utilizamos de maneira indiscriminada. Ela não nos tirou do convívio social. Nós escolhemos sair e fomos seduzidos por suas infinitas possibilidades, que nos fazem desbravar o mundo.

Normalmente, reclamamos da falta de tempo para ficar com os nossos familiares e amigos. A vida corrida e o excesso de atividades nos tiram o foco daqueles seres que crescem num piscar de olhos. Nossos pequenos (às vezes nem tão pequenos assim) são convidados a uma viagem diária por meio de uma tela que põe o mundo literalmente em suas mãos. No entanto, cabe a nós, adultos, apresentá-los à vida real. Um abraço bem dado, um carinho, uma conversa sobre a escola ou uma brincadeira nos aproxima do mundo em que a criança vive. Ouvir suas histórias, saber dos seus sonhos e medos, isso traz os pequenos para o mundo off-line, que é onde vivemos.

Vida, sonhos, jogos e redes sociais, tudo está interligado na cabeça das crianças, e podemos dividir os espaços para cada uma dessas coisas, reservando para elas um tempo longe do celular e uma boa conversa, de forma que não precisem gritar para o mundo virtual o que sentem por não ter quem as ouça. Os aparelhos eletroeletrônicos não são vilões e a internet está aí para nos fazer crescer. As descobertas que ela traz podem ser divididas em um momento em que a família esteja reunida e o contato seja real.

As curtidas virtuais podem se transformar em abraços e beijos de verdade. Os mil minutos de áudio no bate-papo instantâneo podem ser transformados em uma confidência feita olho no olho, e com um abraço de brinde.

Um “filho, eu te amo” digitado antes de dormir, pode ser dito ao pé da cama, antes de cobrir aquele serzinho tão amado. Que nesse Dia das Mães a gente consiga estabelecer relações mais reais e que tenhamos força para mostrar às nossas crianças o quanto a vida off-line pode ser legal também!