Publicom Breves surpreende em número de participantes

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A terceira edição do Publicom – Encontro de Comunicação do Pará deste ano, realizada no município de Breves, no arquipélago do Marajó, superou as expectativas de público. Com a presença de estudantes de ensino médio, comunicadores, representantes de órgãos públicos e instituições do Marajó, foram registradas cerca de 350 inscrições, com destaque para participação de moradores de Portel, Curralinho e Anajás.

Durante a programação do evento realizado pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Comunicação (Secom), nos dias 17 e 18, houve trocas de experiências e debates sobre cerimonial, design, mídia e feminicídio, direitos de crianças e adolescentes, credibilidade da informação. Os livros arrecadados no credenciamento – um total de 170 exemplares – serão doados ao Hospital Público Regional do Marajó.

Para Marlon Nascimento, correspondente da TV Record na região, repórter da TV SBT e assessor da Prefeitura de Breves, o Publicom é uma oportunidade de integração dos profissionais da comunicação da região. “Aqui podemos articular novas pautas, conhecer melhor cada um e trocar experiências. O custo para nos qualificarmos, saindo do Marajó para cidades maiores, é muito alto”, ressaltou. Com seis anos de carreira, ele destacou que o objetivo principal dos jornalistas é fazer uma divulgação de credibilidade para beneficiar a população. “Acredito que um evento como este me ajuda a fazer algo melhor, com boas fontes e informação de qualidade”, afirmou.

Para se iniciar na profissão, Marlon Nascimento teve apenas apoio de capacitação das emissoras em que trabalha. Ele estava atento à trajetória profissional do apresentador de TV e radialista Valdo Souza, um dos palestrantes do Publicom. Valdo Souza contou que começou a trabalhar com divulgação de produtos nas portas das lojas de Belém. “Eu era um bicho do mato, muito tímido e envergonhado. As pessoas achavam que a locução era gravada em fita cassete”, relembrou. Observado no comércio, ainda na década de 80, ele foi convidado a fazer locução de torneios esportivos, até ser chamado para estagiar na rádio Marajoara. “Hoje, com as novas tecnologias não precisamos mais passar pelas dificuldades daquele tempo”, disse.

Desenvolvimento social

Este ano, o tema escolhido para o Publicom foi “Comunicação para o desenvolvimento social”. Para contribuir com o debate, o encontro teve a participação de Jaqueline Almeida, consultora do Unicef – Fundo das Nações Unidas para a Infância, instituição presente em 194 países e com escritórios em nove estados brasileiros, sendo que o do Pará atende a Amazônia Legal. Ela é jornalista especializada em direitos humanos de crianças e adolescentes, com experiência em jornais como O Liberal, Folha de São Paulo, Revista Marie Claire e agência Reuters. “Precisamos ampliar a visão sobre a nossa função na sociedade, muito mais que discutir novas tecnologias em comunicação. Trabalhamos para que toda a criança e adolescente tenham acesso aos seus direitos e que sejam garantidos plenamente”, observou.

Os quatro objetivos principais do Unicef são políticas especializadas para crianças e adolescentes excluídos; políticas sociais de qualidade para crianças e adolescentes vulneráveis; prevenção e resposta a formas extremas de violência; e cidadania engajada. “Pretendemos a universalidade de direitos com equidade social. Devemos usar instrumentos de comunicação como uma via de mão dupla para empoderar indivíduos e comunidades, encorajando-os a assumir a mudança que eles querem às suas vidas”, explicou Jaqueline Almeida, reforçando que o papel da comunicação para o desenvolvimento social também é entender as pessoas, suas crenças, seus valores, as normas sociais e culturas.

Feminicídio

Pela quarta vez no Publicom, a roteirista, diretora e pesquisadora Livia Perez debateu o tema “Mídia e Feminicídio”, após a exibição do seu documentário “Quem matou Eloá”. Momento de intenso envolvimento de jovens na plateia, sobretudo meninas que relataram situações de machismo cotidianas. “Acredito que a mídia não está dissociada da sociedade. Então precisamos discutir essas questões para mudar o entendimento equivocado sobre casos de feminicídio. Vamos refletir o quanto o ciúme é usado para justificar crimes e autorizar homens a matarem mulheres”, afirmou, informando que o Brasil é o quinto país que mais mulheres são assassinadas.

Ela sugeriu que a mídia noticie casos de estupro sem romantizar os atos dos homens, faça a distinção que estupro não é sexo e não desmereça a vítima. Nos casos de feminicídio, é importante não romantizar alegando ciúme do agressor, não julgar a vítima por seu comportamento e não justificar o crime. “Como boas práticas, podemos utilizar termos corretos como feminicídio e estupro, divulgar informações de apoio às vítimas, assim como estatísticas sobre violência contra a mulher no Brasil”, recomendou.

A estudante Milla Even da Silva Mendes, 17 anos, saiu motivada do debate a conversar com a sua mãe sobre o discurso machista que ainda existe dentro de casa. Segundo ela, é clara a diferença de tratamento dado a ela e ao irmão, como limites de horários para passeios ou obrigações domésticas. “Na escola, não tratam sobre este assunto. Ao assistir o documentário, entendo que não foi um simples caso de sequestro e sim feminicídio. Me sinto excluída desse tipo de debate aqui no município. Minha mãe foi agredida pelo meu pai, mas tendo sido o meu pai, sei que foi errado. E mesmo depois disso, ainda preciso explicar a ela que a culpa nunca é da mulher”, relatou.

Oficinas

As oficinas do Publicom pela parte da manhã na quinta e sexta-feira convidaram os participantes a praticarem as dicas sobre cerimonial, arte de falar em público e design. Cerimonialista do Governo do Estado há mais de 20 anos, Reginaldo Teles foi o responsável pelas oficinas de cerimonial e arte de falar em público, no primeiro dia do Publicom. Diante de muitos estudantes de ensino médio e jovens universitários na plateia, ele enfatizou a importância de desenvolverem novos projetos em comunicação e uma carreira de sucesso na sua área. “Para ser cerimonialista, basta querer e ter amor. O nosso papel é evitar gafes e ‘quebras’ de protocolo. Trabalha-se muito, sem feriado ou finais de semana, com horários rígidos. Somos os primeiros a chegar e os últimos a sair”, enfatizou.

Segundo Reginaldo Teles, administrar problemas e vaidades é um dos ossos do ofício da atividade. Ele explicou os vários tipos de cerimonial, do religioso ao político, passando pelo militar, jurídico e fúnebre, diferenciando o que é a organização do evento e o protocolo. Abordou ainda a ordem de precedência constitucional, prevista em decreto de 1972, a composição de mesa oficial e as funções do mestre de cerimônia. “Apesar de todas as convenções e leis, a máxima do cerimonial é o uso do bom senso. O mestre de cerimônias precisa, sobretudo, sair de imprevistos”, ensinou.

Formada em Publicidade e Propaganda, pela Universidade Federal do Pará (UFPA) em Belém, Alessandra Hynara de Oliveira é assessora da Prefeitura de Anajás há um ano. Para conquistar o emprego na cidade que a família reside, ela elaborou um projeto de comunicação para gestão municipal. “Nunca houve um comunicador formado na área trabalhando no município”, ressaltou. Segundo ela, é um grande desafio trabalhar com comunicação no Marajó. “Não tenho uma equipe, por exemplo. Por isso, precisamos saber um pouco de tudo quando se trata de um município pequeno”, acrescentou. Sobre a oficina de cerimonial e arte de falar em público, ela avaliou positivamente as dicas recebidas. “Trabalhamos com muitos eventos e nem sempre os funcionários da Prefeitura entendem que devemos seguir regras”, finalizou.

Criatividade

No segundo dia de oficina, o tema foi “Design para quem não é designer” com o publicitário Filipe Almeida, da equipe da Secom. Ao diferenciar design e arte, Filipe Almeida explicou que o primeiro tem o compromisso de uma interpretação geral e o segundo individual. “Todos precisam entender minimamente o teu projeto de design. O nosso trabalho é escutar os problemas e pensar soluções, ou seja, encontrar formas de resolver problemas com criatividade. O design está em tudo, tudo mesmo, não adianta fugir! Na comunicação, publicidade, entretenimento, produtos, moda e até nas sobrancelhas”, brincou.

Ele orientou que os futuros designers se alinhem ao espírito do tempo presente para captar o futuro. “Qual o espírito do tempo de 2018 e o que não cabe mais esse ano? Não se aceita mais machismo, racismo, homofobia, por exemplo. As pessoas que não estão alinhadas são defasadas. Espera-se empatia. Portanto, sejam parte desse tempo de agora para que sejam eficientes”, disse. De acordo com Filipe Almeida, para começar um projeto de design é necessário listar as demandas, fazer um diagnóstico, cronstruir um briefing, pensar junto com o cliente e o cliente acreditar no designer.

Com essas dicas da oficina, o estudante Damocles Trindade Neto já começou a elaborar proposta de nome para o restaurante da mãe, que será inaugurado até o final do mês. Ele está com a missão de fazer o marketing do empreendimento da família. “Até então, eu não tinha nada em mente para marca, de modo que as pessoas vejam e identifiquem como o restaurante. A ideia inicial da minha mãe é um nome muito grande; quero um nome pequeno, criativo e que chame a atenção das pessoas”, afirmou.

Hericley Serejo, relações públicas do Instituto Federal do Pará (IFPA), está há seis meses em Breves, após aprovação em concurso público. Ele comentou que trabalhou por nove anos em uma empresa cheia de engenheiros, com modelo de pensamento diferente dos profissionais de Comunicação. “A gente se ouvia muito. Nessa área, precisamos deixar o ego de lado para construirmos juntos um projeto”, acrescentou.

Por Fabíola Batista